quarta-feira, 9 de março de 2011

20 - POÉTICA NEGREIRA (O POETA DO DESERTO)

Imagem Google - Negreiro-Rugendas

Navios negreiros fétida lembrança, devido à melatonina a herança de um povo maltratado, mas, tenaz, cubículo impregnado no âmago de minha mente, inenarrável dor me traz;

Gritos suados, farrapilhos de gente amontoados, rumo a um destino traçado pelo capataz, mar ingênuo afogando nossos sonos, sonhos,
emergindo vil metais, o único ensejo daqueles homens, que com a dor de outros sem direito nem a nomes, acumularam capitais;

Do mar de dor ao maior martírio, maltratados em meio ao cultivo, dos tubérculos,
dos legumes aflitos, das verduras, dos grãos sem paz, o chicote era o incentivo, costas em chagas o comum aviso, ao desavisado mais audaz;

Quando a noite silenciava os gritos, dança de roda, feijão cozido, com tripas ensebadas,
saudade não me traz, engaiolados sem aviso, sem eira nem beira só com um desígnio, a liberdade de outrora não mais;

Vi parentes sem forças sumindo, amigos se despedindo, em meio ao sangue tão igual aos demais, não entendia o porquê do domínio, esse era meu maior desatino, Deus escutou os pedidos, misturados aos constantes gemidos,
por saber que éramos iguais;

Tronco do ardor no pátio erguido, chibata sem pena apurada com sais,
negros fujões enterrados vivos, castrados, as palmatórias sem alívio, azeite quente tortura voraz, gloriosa lei nos devolvendo um sorriso, que há muito estava preterido, ao ranger mesclado aos ais;

Sou um resquício de um passado escondido, nas vielas do que não me apraz,

porém, hoje exclamo incontido, um por anos silenciado grito, nossa cor não nos diferencia dos demais, perdôo o que fizeram comigo, e com os outros que ficaram para trás, racismo pior inimigo, transmutados em um capataz.


O POETA DO DESERTO

Indicamos o áudio do texto acima através do link: http://www.opoetadodeserto.recantodasletras.com.br/audio.php?cod=36704



Um comentário:

Felipe Padilha di Freita disse...

Eis que do calor misturado às intempéries da trilha que se faz sozinho, o ser vagante no deserto em meio aos seus calos e seus mais que poéticos desatinos, em miragem transcendente dialoga com um ser, um questionador por desígnio, e o andante com peito aberto deixa transparecer seus intentos, os seus sonhares, os seus estímulos, cajado em riste apontando que ainda é longo e voraz o caminho, continua suas andanças, passos mais firmes com o carinho, dos que estimulam o poeta que caminha com os desatinos, e que tem os seus sãos passos e seu coração como os reais pergaminhos, é hora tenho pressa, os meu pés me mostram o caminho, seguir sempre em direção ao que me inquieta é meu maior enigmático destino, sou O Poeta do Deserto, um caminhante dos versos por estímulo, aqui deixo minhas pegadas, guardarei em lindo silo árido todo acalento e carinho.

À Celêdian sensível poetisa que cruzou meu caminho e que enxergou minha arte com o seu modo único de enxerga-la,ao poeta Henrique pela troca transcendente, singular deleite por estímulo e aos organizadores de importante site que assim como eu, como o Henrique,Celêdian e tantos outros, devem enxergar na arte uma forma de mudar, nem que seja um só coração, este é o mais salutar e inebriante cru desígnio, como o diz o ser do deserto:

“Mostrar os nossos talentos é uma forma de ficarmos frente a frente com nós mesmos, com nossas tantas incongruências e imperfeições, mesmo que assim as achem congruentes e perfeitas, é como abrir o calabouço de nossas almas, lapidarmos o que há de melhor e arrancarmos as arestas do que é inconfessável, sobretudo, para nós mesmos.

É uma arte compartilhada da forma mais nua e crua, a arte de expormos a arte do que verdadeiramente somos, a arte de sermos nós mesmos, compartilhamento das mais belas formas de exteriorizações do sentir humano, para, quiçá, outros muitos tantos também desfrutem de nossas tantas contemplações e até lamentações, postas à tona ao pretexto de se criar, e tornarem-se assim cúmplices de nosso pensar solitário, de coadjuvantes a protagonistas, na cumplicidade de nossa mais laboriosa criação.


Absolutamente mais difícil do que externar o que somos é quando é chegada a hora de reabrir o calabouço de nossas almas e recolher o que nos resta de tudo o que fora confessado, é o momento de arrumarmos tudo em um cantinho, escondermos as chaves, e nos debruçarmos na mais duvidosa e angustiante divagação, a da esperança de termos realmente ensinado aos outros toda a nossa abstração, que um pouquinho do doar da gente tenha mudado, mudado definitivamente, mesmo que apenas e tão somente, um só coração!”


Meu muito obrigado, abraços poéticos, eu sou O Poeta do Deserto!